Postado por Willow, a Bruxa | Às 10:00 | Em Prontopostei
Por acaso. Minha namorada foi me deixar na parada, a mãe dela apareceu. Atravessou a rua e quando eu vi já estava me cumprimentando. Minha namorada havia dito que ia sair com uma amiga do curso de idiomas, deu um nome falso para mim, meu telefone, o da minha mãe e me avisou de tudo. Mas eu nem imaginava que fosse conhece-la.
Conversamos um pouco enquanto meu ônibus chegava. E então perguntou meu nome. Confirmei o nome falso com habilidade. Minto bem. E conversei simpaticamente com as duas até que finalmente meu ônibus chegou.
Eu minto bem, mas não gosto. Escolhi não fazer isso na minha vida. Prefiro jogar a verdade e ver no que dá. Mas era a mãe da minha namorada, não a minha. Era a vida familiar dela, então tive que seguir o plano dela, a decisão que ela tomou. Mas não me senti nem um pouco bem enquanto fazia aquilo. Enquanto eu falava, meu rosto sorria, mas meu coração sabia que isso um dia não vai acabar bem.
Porque aquela senhora, que eu ouvi falar muito mal pela minha namorada, por ser preconceituosa, homofóbica, intolerante, por diminuí-la por causa disso, por oprimi-la, por machucá-la, aquela senhora é um ser humano. Uma mãe. Alguém que tem sentimentos e tem direito de tê-los. Ela tem direito de não aceitar, de reagir mal, de se revoltar, de chorar, de procurar apoio em outros que concordem com ela. E mais do que isso ela tem direito a verdade. Ela não merece ser enganada. Ninguém merece, que dirá uma mãe.
Minha sogra sabe que minha namorada é lésbica. Mas minha namorada finge que não "pratica" isso. Como ela faz isso? Mentido. Tudo porque na vez em ela que contou, a reação da mãe foi tão ruim que minha namorada recuou com a verdade.
Mentir com medo da reação dos outros é praticamente tirar deles o direito de reagir. Quer dizer que se eu reajo mal a algo não me contam mais a verdade com medo da minha reação? Não acho isso correto.
Nossos pais não tem condições de aceitarem nossas vidas de prontidão. Eles tinham planos para nós. E a impressão que dá é que nós só crescemos para frustrá-los. Aceitar que um filho é outra pessoa, com planos próprios, vida própria e sentimentos próprios não é fácil. Eles tentam nos proteger do mundo e acabam nos negando o mundo.
Assim que minha sogra faz. Mas ao conhece-la, ao vê-la pela primeira vez, como um ser humano e não como alguém sempre mencionada como um monstro, eu sei, não é por mal.
Qual o melhor caminho para se seguir? Acredito que seja o da verdade. Não me sinto confortável em nenhum outro. Mas sei que antes de decidir por isso é preciso estar preparada. E sei que minha namorada não está. Nem todo mundo se expressa bem como eu. Fato. Não posso cobrar isso.
Mas conformar-se, relaxar, deixar a vida se esconder sob uma cortina de mentira é decididamente algo que não estou disposta a assistir acontecer.



